sábado, 18 de novembro de 2017

Os cães e uma liberdade quase primitiva.

 
Texto e fotografia,Mz





Tem dias que se passeiam como se tudo fosse deles. Tomam conta da estrada, da terra, das coisas do homem. Sem perderem a afabilidade, ainda caçam roubando galinheiros de ferrolhos frágeis ou, de cancelas velhas a donos descuidados. São os cães. Principalmente os cães. Fotografei-os de manhã cedo com este sol dourado de Novembro, e depois, ao final da tarde, com o mesmo sol, contudo, quase morto. Ocorre-me que a brutalidade de ser comido por outros bichos, é um pensamento de uma bestialidade que nos fere a sensibilidade. Aqui na aldeia, é tudo mais bruto, mais bravo e transigente. Uma liberdade primitiva com a mais-valia de se poder dormir num telheiro quente até à noite, de trazer as patas sujas para o pátio de casa, e depois, receber afagos e mimos sem a repreensão dos donos.






terça-feira, 14 de novembro de 2017

Presa aos bichos.

Texto e fotografia,Mz



Estou presa aos bichos, ou melhor, fascinada com as poses, com as cores e, acima de tudo com os pormenores de que são feitos – a beleza do detalhe. Acautelei-me com o Sr. Carneiro e a sua esposa – Ovelha, que se deixaram fotografar, mas, sempre de olhar fixo e intimidativo. Os bichos domésticos às vezes são perigosos. Estão lá em baixo, naquele lugar de sol e sombra, naquela luz magnífica de outono, que já vos falei anteriormente, aqui . Lamentamos a falta de chuva que enquanto não chega, fruímos já do frio das manhãs e entardeceres. Tudo o que o sol faz emergir da terra, fumega como se cozinhasse a aldeia, por vezes, um vento que arrasta folhas e a calmaria da terra, pó molhado de orvalho. Depois, os alvoroços das aves de capoeira que parecem umas tontas, umas cabeças no ar cheias de nervos que ao mais pequeno barulho, movem-se impacientes levantando as asas, e, as penas que já se lhes desprenderam.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Esta luz.

Texto e fotografia,Mz





- As maçãs tardias continuam a cair; pois que caiam livres!
 Havemos de regressar ao chão, à exalação da terra e às coisas que pisamos quando andamos pela ruralidade dos caminhos. Agora que o sol voltou num entremeio de outono, é obrigatório mostrar-vos outras coisas; esta luz, este tom de verde e azul tão próprio dos lugares envelhecidos que o sol e a sombra nos oferecem.
- Não é lindo?
Com um pouco de fantasia partilho a mesa - toalhas de musgo, uma mão cheia de alfazema, umas quantas nozes apanhadas do chão e o abandono a uma merenda simples. Assim, sem mais nada na companhia de outros bichos.



quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Novembro

Texto e fotografia,Mz




Calçadas as botas do campo, esmaga-se um caminho de folhas velhas amolecidas como pão de açorda demolhado e velho. Aqui, já não é bonito o afogueado do outono quando lhe cai a chuva e o enlameado da terra deixa-nos o chão em papa. Novembro carrega o desengraçado da natureza, a melancolia das coisas mortas, e o cheiro amofinado dos bolores e do podre. A beleza tem de vir de um olhar sensível e secreto, onde toda esta realidade se pode converter num encantamento. 





terça-feira, 31 de outubro de 2017

Bruxinha

Texto e fotografia,Mz


Uma boneca perfeita para a sua condição.
 Ajuda-nos nos contos de fadas e tudo ganha outra dimensão.


👀

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Crisântemo - destino solene

Texto e fotografia,Mz




Deste Outubro castigado, onde lhe fugiu a estação, o céu não chora a chuva que lhe pertence. E na aldeia dos arrozais, do vinho e do milho, descobri as flores. As mulheres, no meio delas, recordam-me das pragas do fim do mundo. Falando baixinho para não despertar a "Besta", vão remoendo calmamente o estado apocalíptico do tempo, enquanto, delicadamente, colhem largos molhos destas flores e eu faço o registo de uma beleza traída.

Tão belos os Crisântemos, e, que destino tão solene e tão triste, por florirem em tempo de finados, aqui em Portugal. É a flor das lágrimas.